Giácomo Tomazzi: entre matéria, pesquisa e brasilidade

18 SET 2026
• Inspiração

Uma parceria construída a partir de afinidades criativas e de um olhar compartilhado para o design brasileiro. Ao longo de sua relação com a Lider, o designer Giácomo Tomazzi encontrou no nosso repertório produtivo um território para experimentar materiais, investigar novas soluções construtivas e traduzir referências brasileiras para uma linguagem contemporânea. O resultado são peças que conciliam identidade, inovação e domínio técnico e que vêm conquistando importantes prêmios no Brasil e no exterior. Nesta entrevista, ele fala sobre seu processo criativo, a madeira como campo de experimentação, o amadurecimento de sua trajetória e o momento de valorização do design brasileiro contemporâneo no cenário internacional.

 

Como começou a sua relação com a Lider e o que fez você perceber que havia afinidade entre o seu trabalho e a identidade da marca?

Minha relação com a Lider começou pela admiração. Quando entrei no mercado de design, passei a acompanhar os movimentos da marca, sua direção criativa e as colaborações com profissionais que eu já admirava. Também me chamavam a atenção os produtos muito bem desenhados e contextualizados dentro de um conceito de marca consistente, com uma linguagem própria e muito forte.

Essa identidade sempre me interessou, especialmente pelo olhar atento para o Brasil, para a natureza e para o morar brasileiro. É uma abordagem que se conecta diretamente ao trabalho que desenvolvo no estúdio, buscando referências brasileiras e maneiras de traduzi-las para uma linguagem contemporânea.

A conexão com a Lider surgiu justamente desse ponto em comum: um olhar para o design brasileiro feito com propriedade, valorizando nossas referências e, ao mesmo tempo, trazendo-as para o presente.

 

Mesas Café: uma criação de Giácomo Tomazzi para a Lider que já ganhou diversos prêmios de design.

Mesa Café: vencedora dos prêmios iF Design e do Salão do Móvel Brasileiro.

 

Quando você começa um novo projeto, qual costuma ser o ponto de partida: uma forma, um material, uma necessidade funcional, uma referência ou até uma memória?

Depende de cada projeto. No caso da Lider, existe uma demanda da marca em relação à tipologia do produto, mas também tive bastante abertura para propor novos caminhos. Meu primeiro movimento foi olhar para o portfólio e entender o que poderia complementá-lo. A partir daí, desenvolvi uma proposta dentro da curadoria e do olhar do Guilherme [Leite Ribeiro, diretor criativo da Lider], considerando também o tema de cada coleção, seja o Brasil, a praia, a cidade, e pensando em como poderia interpretá-lo a partir do meu repertório.

O processo também passa por compreender a estrutura produtiva da empresa: seus pontos fortes, os materiais com os quais já possui maior domínio, as tipologias que podem ser exploradas e, claro, a própria linguagem da marca. São muitas camadas que precisam conversar entre si.

Depois dessa análise, entra a possibilidade de acrescentar algo novo: uma tipologia, um material, uma tecnologia ou até uma complexidade construtiva que ainda não esteja presente no portfólio. Ao desenhar um produto, parto das minhas referências, pesquisas e da bagagem que construí ao longo do tempo, mas procuro combiná-las a todo esse contexto. É justamente a soma desses diferentes fatores que, para mim, dá corpo e identidade a um produto.

 

Rack Taquaras

Rack Taquaras: Giácomo Tomazzi trabalhou as ripas de madeira para trazer mais leveza às peças.

 

Qual é o papel da experimentação com materiais, especialmente a madeira, no seu processo criativo?

Essa é uma pergunta interessante porque, diferentemente de outros designers brasileiros, não iniciei minha trajetória no design trabalhando com a madeira. O Brasil tem uma tradição muito forte ligada a esse material, tanto por sua abundância quanto pela nossa capacidade produtiva. Não por acaso, uma parte importante do design brasileiro é reconhecida internacionalmente pelo trabalho com a madeira.

Na minha parceria com a Lider, tive a oportunidade de explorar mais esse universo, especialmente por ser um material que considero um dos pontos fortes da marca. Há um domínio técnico do acabamento, aliado a questões como sustentabilidade e à própria busca por referências brasileiras.

Para mim, foi uma oportunidade de trabalhar a madeira com mais refinamento e aproximá-la da linguagem que já desenvolvo no estúdio. Meu design tende à leveza e, por isso, procurei explorar recursos como as ripas de madeira para criar peças visualmente mais leves, orgânicas e sensuais. Foi uma maneira de trabalhar um material tão associado à tradição do design brasileiro a partir de uma perspectiva muito própria.

 

Cabideiro Restinga de Giácomo Tomazzi para Lider

Cabideiro Restinga: o ecossistema litorâneo como fonte de inspiração.

 

Este ano, a mesa Café ganhou o prêmio iF Design e também o Prêmio Salão Design. O que esse reconhecimento representa para você e como ele impacta a sua trajetória?

No último ano, o estúdio conquistou alguns prêmios no Brasil e no exterior, muitos deles por projetos desenvolvidos em parceria com a Lider. Acredito que esse reconhecimento também seja reflexo de uma parceria sólida e consistente, pautada por uma busca contínua pela evolução do desenho, dos processos e da maneira de conceber produtos cada vez mais relevantes e inovadores.

Esses prêmios também marcam um momento de maturidade profissional do estúdio. São quase dez anos de atuação no setor, e receber esse reconhecimento reforça que estamos construindo uma trajetória consistente.

Ao mesmo tempo, os prêmios nos dão ainda mais estímulo para seguir avançando, desenvolvendo produtos melhores, capazes de responder às demandas do mercado, mas também de propor novos caminhos e trazer inovação para as empresas com as quais colaboramos.

 

Poltrona Maria, de Giácomo Tomazzi

Poltrona Maria, a primeira colaboração de Giacomo Tomazzi com a Lider

 

O que você acredita que os júris internacionais enxergam nessas peças? Há características do design brasileiro que hoje despertam um interesse especial fora do país?

Essa é uma ótima pergunta. Recentemente, estive com a equipe do iF Design, durante uma exposição do estúdio, e tivemos a oportunidade de conversar um pouco sobre o mercado nacional e sobre as particularidades do design brasileiro.

Temos uma tradição modernista muito forte e reconhecida internacionalmente, mas acredito que o design brasileiro contemporâneo seja marcado, sobretudo, pela multiplicidade. Hoje existe uma pluralidade muito grande de linguagens, processos e materiais. Somos um país continental, com uma enorme diversidade de matérias-primas e possibilidades produtivas, que podem ser exploradas tanto de maneira artesanal quanto industrial.

A madeira continua tendo um papel importante nessa história, agora também trabalhada a partir de novas tecnologias. Ao mesmo tempo, existe uma valorização crescente da manualidade e do fazer artesanal, especialmente como contraponto à massificação dos produtos. Há um interesse cada vez maior por peças de qualidade, bem desenhadas e bem executadas, independentemente de serem produzidas artesanalmente ou em escala industrial.

Acredito que o mercado internacional começa a perceber com mais atenção toda essa diversidade e o enorme potencial produtivo que existe no Brasil. Aos poucos, há também um reconhecimento de que o nosso design contemporâneo possui uma identidade e um valor tão relevantes quanto aqueles que consagraram o design modernista brasileiro no exterior.

 

Cadeira Siri

Cadeira Siri: releitura contemporânea das formas do crustáceo.

 

Depois de receber um prêmio, você passa a olhar para aquela peça de maneira diferente ou o reconhecimento não interfere na relação que mantém com o projeto?

Acredito que meu olhar sobre a peça premiada não mude, mas os prêmios certamente transformam a maneira como encaro os novos projetos. Eles aumentam o nível de exigência e me estimulam a buscar soluções construtivas melhores, processos mais sustentáveis e tecnológicos, novos materiais e, sobretudo, um aprofundamento cada vez maior da pesquisa.

À medida que esses reconhecimentos se acumulam, cresce também a responsabilidade sobre aquilo que será desenvolvido a seguir. Passo a olhar para cada novo projeto com ainda mais cuidado e atenção, buscando soluções mais consistentes e inovadoras.

 

Minibar Taquaras, de Giácomo Tomazzi

Minibar Taquaras: desdobramento da versão do rack.

 

O que ainda desperta a sua curiosidade como designer? Há materiais, técnicas, tipologias ou questões que você gostaria de explorar nos próximos projetos com a Lider?

Acredito que a curiosidade seja a base do trabalho de qualquer designer, artista ou arquiteto que atua no campo criativo. É esse olhar atento e curioso sobre o mundo, sobre os materiais, as formas de produzir, as tecnologias, os espaços e a cultura que amplia nosso repertório e enriquece a atuação profissional.

A pesquisa constante também é uma parte fundamental desse processo. Estamos sempre buscando novas soluções, maneiras de aprimorar processos e possibilidades que, muitas vezes, fogem do convencional. Na relação com a Lider, por exemplo, considero importante assumir também esse papel de parceiro da marca, propondo soluções que possam ser incorporadas aos seus processos e abrir novos caminhos.

Além disso, procuro alimentar meu repertório a partir de outras disciplinas, como moda, arte, arquitetura e gastronomia. São diferentes campos da criatividade que ajudam a expandir o olhar e podem se transformar em inspiração para o design. No fim, acredito que a curiosidade seja o grande motor de tudo isso.

 

Giácomo Tomazzi

Giácomo Tomazzi durante o lançamento da Coleção Vibra, em 2022.

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